A dança é considerada uma das artes mais antigas e para muitos
servia não apenas como diversão ou terapia. Essa arte ocupa espaços
importantes na cultura de muitos povos da antiguidade. A dança
servia para alguns povos africanos, por exemplo, como meio de
preservar a tradição, já que muitos não tinham a escrita
desenvolvida. As mulheres hebraicas exprimiam por meio da dança os
seus sentimentos; quando seus maridos ou pessoas amigas voltavam a
suas casas, vindo do combate pela vida e pela pátria, saíam elas ao
seu encontro com danças de triunfo. A dança constitui um meio de
comunicação muito pessoal e eficiente, ela pode determinar uma
disposição de espírito, expressar emoções ou até mesmo contar
uma história. Além disso, os “movimentos corporais que seguem
ritmos” têm um significado amplo e de grande importância para
muitas religiões até mesmo na atualidade. Visa-se aqui demonstrar o
papel da dança nas religiões cristãs, umbanda e candomblé. Essas
três foram selecionadas por serem religiões que usam a dança em
suas cerimônias e são vigentes no Brasil atual.
É um ponto delicado de se tratar quando estamos falando do meio
cristão. Atualmente com a insurgência do neopentecostalismo, várias
críticas e várias mudanças foram realizadas, dando continuidade
assim ao movimento protestante que de fato, ainda protesta. No final
do ano de 2010, por exemplo, o Concílio Supremo da Igreja
Presbiteriana do Brasil (IPB) proibiu as apresentações de
coreografias em seus cultos. Muitas dessas proibições remetem aos
pecados carnais, ao obscurecimento da “clareza” dos cultos
através de uma linguagem primitiva e “atrasada”, do uso de
fantasias nos templos e geralmente apoiadas nos escritos do apóstolo
Paulo.
Na ascensão do cristianismo na cultura ocidental, o corpo foi
considerado e visto como lugar do pecado, merecendo, portando, o
repúdio. Entre os anos 465 e 1453 da era cristã, o ato da dança
era considerado pecado gravíssimo perante a igreja. Esse repúdio a
dança na Idade Média também é demonstrado em 772, onde o papa
Zacarias escreve um decreto “contra os movimentos indecentes da
dança ou da carola (uma dança típica dessa época)”.
Porém, existem diversas igrejas cristãs atuais que usam e abusam
dessa arte como forma de adoração (principalmente os grupos de
louvor), também apoiados em escritos bíblicos. Várias passagens na
bíblia remetem e exaltam a importância da dança como forma de
adoração, algumas aqui serão citadas:
Louvem-no
com tamborins e danças, louvem-no com instrumentos de cordas e com
flautas.
(Salmos 150: 4)
(Salmos 150: 4)
Então
avisaram a Davi, dizendo: Abençoou o Senhor a casa de Obede-Edom, e
tudo quanto tem, por causa da arca de Deus; foi pois Davi, e trouxe a
arca de Deus para cima, da casa de Obede-Edom, à cidade de Davi, com
alegria. E sucedeu que, quando os que levavam a arca do Senhor tinham
dado seis passos, sacrificava bois e carneiros cevados. E Davi
saltava com todas as suas forças diante do Senhor; e estava Davi
cingido de um éfode de linho. Assim subindo, levavam Davi e todo o
Israel a arca do Senhor, com júbilo, e ao som das trombetas. E
sucedeu que, entrando a arca do Senhor na cidade de Davi, Mical, a
filha de Saul, estava olhando pela janela; e, vendo ao rei Davi, que
ia bailando e saltando diante do Senhor, o desprezou no seu
coração.
(II Samuel 6: 12-16)
(II Samuel 6: 12-16)
Porque
este meu filho estava morto, e reviveu, tinha-se perdido, e foi
achado. E começaram a alegrar-se. E o seu filho mais velho estava no
campo; e quando veio, e chegou perto de casa, ouviu a música e as
danças.
(Lucas 15: 24- 25)
(Lucas 15: 24- 25)
Em contraste a ala do cristianismo que veem a dança apenas como mais
uma forma de adoração e intimidade com Deus, notam-se religiões
que tem o seu foco principal e sua essência estruturados através da
dança. Destacamos aqui duas dessas religiões: a umbanda e o
candomblé. Apesar das semelhanças em muitos aspectos entre as duas
religiões, as danças nos rituais são bem diferentes entre si.
Cabe aqui fazer observações sobre a dança africana antes de tratar
dessas religiões afro-brasileiras. Na dança africana, cada parte do
corpo movimenta-se com um ritmo diferente. Os pés seguem a base
musical, acompanhados pelos braços que equilibram o balanço dos
pés. A dança é a transmissão da memória. A memória é o aspeto
ontológico da estética africana. É a memória da tradição, da
ancestralidade e do antigo equilíbrio da natureza, da época na qual
não existiam diferenças, separação entre o mundo dos seres
humanos e dos deuses, nem o apego material. O objetivo dessas danças
é atingir o estado de transe, onde o indivíduo aproxima-se de
uma entidade ou é incorporado por ela. Dentre as várias danças
africanas, podemos destacar algumas como lundu, batuque, ijexá,
capoeira, coco, congadas, quizomba, semba e jongo.
A umbanda e o candomblé tem em sua cerne uma característica de
dança comum entre as duas: os rituais são realizados com os
participantes dispostos em forma circular dançando e girando em
sentido anti-horário ao som de atabaques, remetendo dessa forma a
volta aos princípios, uma forma de aproximação com os ancestrais.
Elas diferem entre si em alguns pontos, por exemplo, na umbanda as
cerimônias são caracterizadas por dois momentos, o Xirê, onde se
canta para todos os orixás, no mínimo três cantigas acompanhadas
pelas danças. Em uma grande roda, todos os integrantes dançam
representando as características de cada orixá, imitando seus
gestos. O segundo momento é caracterizado pela chegada dos orixás:
os integrantes então são devidamente trajados e recebem suas
ferramentas. A partir daí, o orixá que desenvolve a coreografia
sagrada, dessa forma sabe-se qual orixá se apossou de cada um pela
forma de dançar, pois cada um tem sua própria “coreografia”.
São citadas algumas coreografias dos orixás na umbanda: Ogun:
bravando sua espada ou seu facão; Bará: versatilidade e energia;
Xangô: tremendo a terra com a força de um trovão; Iansã: linda,
leve e solta; Obá: em suas disputas de guerra, com sua curta espada;
Oxum: meiga e vaidosa, mirando-se em seu espelho; Ossaim: recolhendo
as folhas do chão e pulando em um pé só, sem fazer barulhos; Odé:
coreografia de caçador; Nanã: embalando simbolicamente seus filhos;
Obaluaiê: celebrando vida e morte com seus movimentos rápidos e
vibrantes; Omolú: cansado, velho; Iemanjá: com seus movimentos de
remadora, banhando-se em suas águas; Oxalá: em certos momentos
vibrando e em outros apoiando-se; Oxumaré: graça, beleza e leveza. Já
no candomblé, o ritual continua com a dança em espiral que com o
tempo diminui o seu tamanho, simbolizando assim o maior contato com o
interno. A espiral está ligada a Exu (orixá que expressa a
dinâmica da vida, o movimento interno na criação e na expansão do
mundo).
É inquestionável o fato de que a dança está presente na história
do Homem, inclusive nas religiões, faz parte de sua cultura. Uma
arte que há milênios quebra paradigmas e traz novas visões, seja
no campo religioso ou no lazer. O próprio “homem que matou Deus”,
Nietzsche, pronunciou e reconheceu o valor da dança nas religiões
em sua filosofia: “eu somente acreditaria em um Deus que soubesse dançar!”. E os deuses dançam.




