quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Religião e a Arte Milenar da Dança: Movimento Visível e Forma Cinética do Invisível


A dança é considerada uma das artes mais antigas e para muitos servia não apenas como diversão ou terapia. Essa arte ocupa espaços importantes na cultura de muitos povos da antiguidade. A dança servia para alguns povos africanos, por exemplo, como meio de preservar a tradição, já que muitos não tinham a escrita desenvolvida. As mulheres hebraicas exprimiam por meio da dança os seus sentimentos; quando seus maridos ou pessoas amigas voltavam a suas casas, vindo do combate pela vida e pela pátria, saíam elas ao seu encontro com danças de triunfo. A dança constitui um meio de comunicação muito pessoal e eficiente, ela pode determinar uma disposição de espírito, expressar emoções ou até mesmo contar uma história. Além disso, os “movimentos corporais que seguem ritmos” têm um significado amplo e de grande importância para muitas religiões até mesmo na atualidade. Visa-se aqui demonstrar o papel da dança nas religiões cristãs, umbanda e candomblé. Essas três foram selecionadas por serem religiões que usam a dança em suas cerimônias e são vigentes no Brasil atual.
É um ponto delicado de se tratar quando estamos falando do meio cristão. Atualmente com a insurgência do neopentecostalismo, várias críticas e várias mudanças foram realizadas, dando continuidade assim ao movimento protestante que de fato, ainda protesta. No final do ano de 2010, por exemplo, o Concílio Supremo da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) proibiu as apresentações de coreografias em seus cultos. Muitas dessas proibições remetem aos pecados carnais, ao obscurecimento da “clareza” dos cultos através de uma linguagem primitiva e “atrasada”, do uso de fantasias nos templos e geralmente apoiadas nos escritos do apóstolo Paulo.
Na ascensão do cristianismo na cultura ocidental, o corpo foi considerado e visto como lugar do pecado, merecendo, portando, o repúdio. Entre os anos 465 e 1453 da era cristã, o ato da dança era considerado pecado gravíssimo perante a igreja. Esse repúdio a dança na Idade Média também é demonstrado em 772, onde o papa Zacarias escreve um decreto “contra os movimentos indecentes da dança ou da carola (uma dança típica dessa época)”.
Porém, existem diversas igrejas cristãs atuais que usam e abusam dessa arte como forma de adoração (principalmente os grupos de louvor), também apoiados em escritos bíblicos. Várias passagens na bíblia remetem e exaltam a importância da dança como forma de adoração, algumas aqui serão citadas:

Louvem-no com tamborins e danças, louvem-no com instrumentos de cordas e com flautas.
(Salmos 150: 4)

Então avisaram a Davi, dizendo: Abençoou o Senhor a casa de Obede-Edom, e tudo quanto tem, por causa da arca de Deus; foi pois Davi, e trouxe a arca de Deus para cima, da casa de Obede-Edom, à cidade de Davi, com alegria. E sucedeu que, quando os que levavam a arca do Senhor tinham dado seis passos, sacrificava bois e carneiros cevados. E Davi saltava com todas as suas forças diante do Senhor; e estava Davi cingido de um éfode de linho. Assim subindo, levavam Davi e todo o Israel a arca do Senhor, com júbilo, e ao som das trombetas. E sucedeu que, entrando a arca do Senhor na cidade de Davi, Mical, a filha de Saul, estava olhando pela janela; e, vendo ao rei Davi, que ia bailando e saltando diante do Senhor, o desprezou no seu coração.
(II Samuel 6: 12-16)

Porque este meu filho estava morto, e reviveu, tinha-se perdido, e foi achado. E começaram a alegrar-se. E o seu filho mais velho estava no campo; e quando veio, e chegou perto de casa, ouviu a música e as danças.
(Lucas 15: 24- 25)



Em contraste a ala do cristianismo que veem a dança apenas como mais uma forma de adoração e intimidade com Deus, notam-se religiões que tem o seu foco principal e sua essência estruturados através da dança. Destacamos aqui duas dessas religiões: a umbanda e o candomblé. Apesar das semelhanças em muitos aspectos entre as duas religiões, as danças nos rituais são bem diferentes entre si.
Cabe aqui fazer observações sobre a dança africana antes de tratar dessas religiões afro-brasileiras. Na dança africana, cada parte do corpo movimenta-se com um ritmo diferente. Os pés seguem a base musical, acompanhados pelos braços que equilibram o balanço dos pés. A dança é a transmissão da memória. A memória é o aspeto ontológico da estética africana. É a memória da tradição, da ancestralidade e do antigo equilíbrio da natureza, da época na qual não existiam diferenças, separação entre o mundo dos seres humanos e dos deuses, nem o apego material. O objetivo dessas danças é atingir o estado de transe, onde o indivíduo aproxima-se de uma entidade ou é incorporado por ela. Dentre as várias danças africanas, podemos destacar algumas como lundu, batuque, ijexá, capoeira, coco, congadas, quizomba, semba e jongo.
A umbanda e o candomblé tem em sua cerne uma característica de dança comum entre as duas: os rituais são realizados com os participantes dispostos em forma circular dançando e girando em sentido anti-horário ao som de atabaques, remetendo dessa forma a volta aos princípios, uma forma de aproximação com os ancestrais. Elas diferem entre si em alguns pontos, por exemplo, na umbanda as cerimônias são caracterizadas por dois momentos, o Xirê, onde se canta para todos os orixás, no mínimo três cantigas acompanhadas pelas danças. Em uma grande roda, todos os integrantes dançam representando as características de cada orixá, imitando seus gestos. O segundo momento é caracterizado pela chegada dos orixás: os integrantes então são devidamente trajados e recebem suas ferramentas. A partir daí, o orixá que desenvolve a coreografia sagrada, dessa forma sabe-se qual orixá se apossou de cada um pela forma de dançar, pois cada um tem sua própria “coreografia”. São citadas algumas coreografias dos orixás na umbanda: Ogun: bravando sua espada ou seu facão; Bará: versatilidade e energia; Xangô: tremendo a terra com a força de um trovão; Iansã: linda, leve e solta; Obá: em suas disputas de guerra, com sua curta espada; Oxum: meiga e vaidosa, mirando-se em seu espelho; Ossaim: recolhendo as folhas do chão e pulando em um pé só, sem fazer barulhos; Odé: coreografia de caçador; Nanã: embalando simbolicamente seus filhos; Obaluaiê: celebrando vida e morte com seus movimentos rápidos e vibrantes; Omolú: cansado, velho; Iemanjá: com seus movimentos de remadora, banhando-se em suas águas; Oxalá: em certos momentos vibrando e em outros apoiando-se; Oxumaré: graça, beleza e leveza. Já no candomblé, o ritual continua com a dança em espiral que com o tempo diminui o seu tamanho, simbolizando assim o maior contato com o interno. A espiral está ligada a Exu (orixá que expressa a dinâmica da vida, o movimento interno na criação e na expansão do mundo).
É inquestionável o fato de que a dança está presente na história do Homem, inclusive nas religiões, faz parte de sua cultura. Uma arte que há milênios quebra paradigmas e traz novas visões, seja no campo religioso ou no lazer. O próprio “homem que matou Deus”, Nietzsche, pronunciou e reconheceu o valor da dança nas religiões em sua filosofia: “eu somente acreditaria em um Deus que soubesse dançar!”. E os deuses dançam.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Provocações para professores de História: o ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena em sala de aula


A lei 10.639, de 9 de janeiro de 2003 é claríssima no que diz respeito ao ensino da história e da cultura de dois povos que por muito tempo permaneceram como atores coadjuvantes na história do Brasil. Uma história eurocêntrica do Brasil foi alimentada por séculos, o que causou a exclusão de índios e negros de papéis importantes na historiografia e reflete na memória do brasileiro nos dias atuais.
Muitas instituições de ensino superior e profissionais da área de educação dobraram-se para estarem de acordo com a lei e agora temos uma base do que será a História do Brasil em um futuro próximo. Atualmente existem cursos de formação específica nas áreas para dar subsídios e apoio para os profissionais da educação trabalharem com os temas. Estudos científicos em diversas áreas das ciências humanas e sociais estão sendo produzidos em larga escala devido à originalidade que o tema aborda por conta dos seus anos de marginalização nas ciências.
A ideia da lei é exatamente essa: causar um impacto e promover uma revolução nas grades curriculares das escolas para que nossos filhos e netos possam reconhecer que a participação e colaboração dos índios e negros em nossa história foram tão importantes quanto a do homem branco. Além disso, cabe analisar um fenômeno que está crescendo e o que está sendo construído quando a educação no Brasil trilha esse caminho: a História nacional toma novas formas e tem novas perspectivas, colaborando para uma visão menos eurocêntrica e que corrige os erros da negação secular da participação desses povos em nossa história, além de contribuir para o reconhecimento e respeito das religiões ligadas a cultura dos mesmos, que anteriormente não eram estudadas. Colabora também para a maior inclusão e “aceitação” do negro e do índio na sociedade, no que tange, por exemplo, em assuntos como preconceito, cotas raciais, delimitação de terras indígenas e identidade.
As medidas visam à educação, pois mesmo com a participação de outros meios na construção do saber e da memória do aluno, como internet, TV e outros, a sala de aula permanece como espaço privilegiado para o trato com a memória e para formação da consciência histórica, principalmente no sentido de moldar as identidades vinculadas à nacionalidade. Porém, os professores de história dos ensinos fundamental e médio ainda são assombrados pelo fantasma das faltas de bibliografia básica e formação específica para incluir esses assuntos em suas aulas, já que a maior parte dos professores formados, principalmente nos anos anteriores a validação da lei, não teve contato com o estudo aprofundado dessas culturas nas faculdades, muito menos em suas formações escolares. Sabemos que não é fácil lidar com a situação, principalmente quando não se tem acesso as poucas instituições que promovem essa formação. Porém, podemos usar e abusar das tecnologias da comunicação e informação. Muitos materiais para consulta e para estudos já se encontram disponíveis na rede e os assuntos estão em alta nas discussões atuais. Promover debates e pesquisas em sala de aula permitindo que a História participe, de fato, da construção da memória dos alunos, rompendo com a negação cultural e histórica construída é a melhor forma de promover o cumprimento dessa lei, colaborando, dessa forma, para que os alunos de hoje sejam professores e cidadãos do amanhã que não tenham as mesmas dificuldades dos profissionais que lutam atualmente por essa inclusão.

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quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Foi pelo vintém, mas não é pelos vinte centavos!

 Muitas vezes notamos acontecimentos que se assemelham a fatos passados de nossa História. O presente texto visa uma comparação geral entre a Revolta do Vintém, ocorrida nos últimos anos do Período Imperial no Brasil, e as manifestações desencadeadas em junho de 2013 por consequência do aumento do valor de passagens em alguns Estados do país. Dessa forma, visa-se um melhor entendimento sobre esses dois acontecimentos.
Na década de 1870, o orçamento da coroa ia de mal a pior. Alguns impostos foram criados e alguns já existentes foram aumentados para suprir o déficit orçamentário do Império. Um dos impostos criados foi o “imposto do vintém” no dia 28 de dezembro de 1879 pelo Ministro da Fazenda, que consistia no aumento de um vintém (vinte réis) sobre as passagens do principal meio de transporte público da época: os bondes puxados por burros e mulas. Desde o anúncio do novo imposto, surgiram mobilizações lideradas por publicistas, políticos e principalmente republicanos que visavam a todo custo a queda do Império. Cerca de cinco mil pessoas encabeçadas pelo médico e jornalista republicano Lopes Trovão, dono da Gazeta da Noite, reuniram-se em frente ao palácio do imperador para entregar uma petição solicitando a revogação da taxa, mas as tropas não permitiram a aproximação da multidão. Durante a retirada dos manifestantes o imperador aceitou receber uma comissão para negociar, porém os militantes republicanos recusaram o encontro para tirar o máximo proveito político da reação da polícia.
No dia 1º de janeiro de 1880 uma multidão se reuniu no Largo do Paço, atual Praça 15 de Novembro, e inaugurou uma forma de protestos urbanos violentos no Brasil. Aos gritos de “Fora o Vintém!” os manifestantes espancaram condutores, esfaquearam alguns animais que puxavam os bondes, arrancaram trilhos e munidos de paus e pedras entraram em confronto com a força policial. Esta armada de cassetetes rígidos, na época, foi apelidada de “bengala de Petrópolis”. As manifestações públicas conhecidas como Revolta do Vintém estenderam-se de 28 de dezembro de 1879 a 4 de janeiro de 1880, quando as taxas sobre as passagens foram finalmente retiradas. Os conflitos resultaram de 3 a 10 mortos e alguns feridos.
Mais de um século depois, no ano passado (2013), organizadas em redes sociais digitais na internet, inicialmente pelo “Movimento Passe Livre” e, aparentemente sem lideranças, eclodiram inicialmente algumas manifestações contra o aumento de passagens nas cidades de Porto Alegre, Natal e Goiânia, que alastraram-se de forma viral por todo o Brasil posteriormente. Curiosamente, na cidade de São Paulo os protestos começaram por conta do reajuste de vinte centavos sobre o transporte urbano, valor que remete à memória do estopim da Revolta do Vintém. A massa protestava aos gritos de “Se a tarifa não baixar, a cidade vai parar!”, e de fato parou. O prefeito Fernando Haddad classificou as manifestações como atos de vandalismo e assim como no fim do período imperial, ordenou para que a polícia agisse. Não com “bengalas de Petrópolis”, mas com auxílio de novas tecnologias voltadas para dispersão de tumultos como munição de elastômero (vulgarmente conhecida como bala de borracha), bombas de gás lacrimogênio, sprays de pimenta, armas de choque e cassetetes. A onda de manifestações continuou e com o tempo sofreu uma breve pausa.
É importante analisarmos dois pontos cruciais para o entendimento desses dois períodos:
1- Apesar de o estopim dessas manifestações ser o aumento da tarifa no transporte público, o que leva a população às ruas é uma série descontentamentos, a passagem torna-se apenas um ponto de partida para que outras reivindicações sejam feitas. Durante a Revolta do Vintém, os manifestantes protestavam também pelo alto índice de desemprego, pela falta de moradia, pelas péssimas condições sanitárias e pela carestia. O aporte de reivindicações dos protestos em 2013 era constituído também pelo descontentamento com os altos gastos com a Copa do Mundo de futebol que ocorrerá este ano no país (2014), com o alto índice de problemas relacionados à corrupção política no país, pela péssima qualidade dos sistemas de educação e saúde, dentre outros.
2- A forte repressão policial com objetivo de dispersar os motins. Apesar da diferença substancial entre a polícia imperial da década de 1880 e da polícia militar atual, notamos que a corporação ainda sofre reflexos de um Brasil elitista e centralizado. As ações policiais em relação a essas manifestações são bem semelhantes nos dois períodos, calcadas principalmente na repressão violenta das classes que se manifestam contra medidas governamentais que não atendem seus principais anseios. A polícia do Brasil Império e a polícia militar do Brasil atual tem basicamente o mesmo objetivo, defender os interesses da aristocracia vigente. A diferença nos dois casos que tange aos conflitos entre civis e policias é o surgimento dos black blocs nos movimentos de 2013, grupos anarquistas de ação tática direta e sem lideranças que objetivam adquirir força para confrontar com a polícia, desafiar o establishment e as forças de ordem, bem como a destruição da propriedade privada.
Partindo dessas análises e confrontando os fatos, nota-se que a sociedade brasileira amadureceu politicamente a partir de suas experiências vivenciadas principalmente no período republicano e com a maior facilidade do acesso à informação através da internet. A duração dos dois fatos elencados neste texto demonstra tal amadurecimento, mesmo que ambos tenham sido fortemente reprimidos e não atendidos de fato; a Revolta do Vintém durou apenas 8 dias, não havendo espaço para as reivindicações secundárias. A revolta acabou tornando-se apenas um dos pequenos fatos que colaboraram para o estabelecimento do modelo republicano em 1889. Já as manifestações que eclodiram em junho de 2013 aparentemente não terminaram, apenas sofreram uma “pausa”, e a reivindicação principal (o aumento da passagem) já não é seu principal foco. As lutas por direitos e interesses das classes menos favorecidas que tomaram conta desses movimentos e das redes sociais digitais na internet, de fato, demonstram claramente que a sociedade brasileira tomou uma perspectiva política mais embasada e coerente com seus interesses.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Religião e Internet – Algumas observações sobre o fenômeno da Privatização da Religião nos dias atuais


Este texto não tem o objetivo de analisar o campo religioso atual no Brasil em sua complexidade e muito menos afirmar que a Privatização da Religião é o único fenômeno consequente do uso religioso da internet no Brasil. Visamos aqui uma introdução ao assunto e ressaltar a importância de uma análise mais profunda desse fenômeno, pois ele altera bruscamente a identidade e a forma de crer do indivíduo e, por seguinte, a atual situação do campo religioso no Brasil.
No amplo panorama sobre estudos de sociedade e religião cabe investigar uma situação específica: as consequências do uso da internet para o campo religioso brasileiro. De um lado temos o fenômeno religioso, ora mais próximo, ora mais distante da sociedade. De outro lado temos a internet que, dentro de um conjunto de avanços tecnológicos da humanidade, potencializa o processo de comunicação entre pessoas. Para Manuel Castells (2001) a história da criação e do desenvolvimento da internet é um marco para o homem, pois transcende seus limites institucionais (até mesmo as instituições religiosas) e colabora para a quebra de paradigmas e valores individuais e coletivos – quebra essa que estabelece um a maior velocidade no processo de criação de um novo mundo. Para o autor, o advento da Internet estruturou novos padrões de interação social que substituem as comunicações humanas que são limitadas pelo território.
Devido ao fato de a rede online desenhar-se como “uma forma de organização caracterizada fundamentalmente pela sua horizontalidade” (COSTA, 2003, p. 73), torna-se um local indispensável para o usuário se inteirar do que precisa compreender para tomar uma decisão, substanciar ou denegar uma posição, invalidar ou ratificar uma percepção, um sentimento ou uma crença qualquer. Nesse contexto, traça-se um ambiente regado com inúmeros tópicos de discussões de assuntos tácitos nos ambientes virtuais de característica assíncronas (web forums, principalmente) que mesmo os religiosos mais fundamentalistas são tentados aos jogos reflexivos ali produzidos. Nessa conjuntura, a Comunicação Mediada por Computador (CMC), na atualidade, torna-se a principal responsável pela aceleração e alastramento do fenômeno da privatização da religião - “a ação dos indivíduos no sentido de moldar a sua própria religião, apropriando-se de fragmentos e de elementos provenientes de diversos sistemas religiosos” (ORO, 1997). Pois “até mesmo os indivíduos vinculados aos grupos mais exclusivistas atiram-se avidamente a exercícios de confrontação identitária, devido aos ideais contraditórios a que se submetem na rede, nos quais são obrigados constantemente a redefinirem suas identidades por mais atrelados que estejam a tais grupos” (JUNGBLUT, 2010, p. 207)
Para o entendimento da possibilidade da existência desse fenômeno (a Privatização da Religião) é necessário analisar a situação religiosa atual da sociedade brasileira, para isso é preciso entender um outro fenômeno que a permeia: o pluralismo religioso. Para Carlos Alberto Steil, “o pluralismo religioso é um fenômeno moderno que tem sua origem na ruptura do monopólio de uma religião como a igreja oficial de uma determinada sociedade” (STEIL, 2001, p. 116) O autor conclui que “justamente por não ser religiosa, (a sociedade) torna-se capaz de abrigar todas as religiões” (STEIL, 2001, p. 116). Dessa forma, podemos afirmar que o Brasil só é religiosamente diverso porque não tem religião; porque é laico e assegura a liberdade do culto religioso e essa liberdade assegura também o alastramento do fenômeno da Privatização da Religião, foco deste texto.
Esse fenômeno não é recente no Brasil. Por exemplo, o vemos se manifestar com a fala do personagem sertanejo de Guimarães Rosa em Grande Sertão Veredas, livro escrito e publicado no ano de 1956:
“Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio... Uma só, para mim é pouca, talvez não me chegue. Rezo cristão, católico, emprenho a certo, e aceito as preces de Quelemém, doutrina dele, de Cardéque. Mas, quando posso, vou no Mindubim, onde um Matias é crente, metodista: a gente se acusa de pecador, lê alto a Bíblia, e ora, cantando hinos belos deles.”
Diferente do personagem de Guimarães Rosa que vive em um âmbito de informações limitado comparado aos dias de hoje com o advento da internet, nós temos a facilidade de acesso a informação e às discussões voltadas para religião, o contato com as religiões é mais diverso e ocorre em uma escala maior. Esse fenômeno torna-se mais vigente com a maior facilidade de trânsito e alcance de informação e de ideais de doutrinas religiosas diversas, através do advento das tecnologias da informação e comunicação.
As redes sociais digitais tem colaborado bastante para o crescimento das discussões religiosas, principalmente o Facebook, pois no Brasil é a rede mais utilizada. É possível perceber a existência de páginas voltadas para diversos tipos de religiões, páginas focadas em discussões religiosas e até mesmo páginas voltadas para o ateísmo e o agnosticismo. Apesar das diferenças entre as páginas, existe uma característica que é comum a todas elas: as discussões de assuntos religiosos, sejam elas proselitistas ou não. Em maior ou menor grau, os indivíduos acabam reformando sua identidade religiosa de forma particular, independentemente das doutrinas institucionais.(JUNGBLUT, 2010)
Notamos a partir dessas conclusões que atualmente a diversidade religiosa no Brasil é algo de uma complexidade considerável, principalmente com o alastramento e o desenvolvimento das tecnologias da informação. Essa complexidade ultrapassa os limites territoriais e institucionais e traçam um campo religioso difícil de ser classificado e até mesmo estudado, já que está baseado em experiencias e reflexões individuais. 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

CASTELLS, Manuel. A Galáxia da Internet: Reflexões sobre a internet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.

COSTA, Larissa (Coord.). Redes: uma introdução às dinâmicas da conectividade e da auto-organização. Brasília: WWF-Brasil, 2003.

JUNGBLUT, Airton Luiz. O uso religioso da Internet no Brasil. PLURA, Revista de Estudos de Religião, vol. 1, n. 1, p. 202-212, 2010.


ORO, Ari Pedro. Modernas formas de crer. Revista REB 225: 39-56,1997.


STEIL, Carlos Alberto. Pluralismo, Modernidade e Tradição: transformações do campo religioso. Ciências Sociais e Religião, Porto Alegre, ano 3, n.3, p. 115-129, 2001.