Publicado
pela primeira vez em 1936, o livro Raízes
do Brasil é uma das obras mais importantes entre as quais colaboraram pela
incessante busca de uma identidade nacional a partir, principalmente, dos
anseios pelas novas tendências europeias trazidas pela Semana de Arte Moderna
de 1922. Naquele período, o Brasil passava por um momento delicado de transição
de uma política que antes se polia pelos interesses da aristocracia agrária
para uma política mais focada nos interesses urbanos, dadas as características
do governo de Getúlio Vargas. A obra tem notável presença de conceitos
culturais, sociológicos e antropológicos weberianos, visto que fora esboçada em
meados da década de 1920 na Alemanha quando o autor teve contato com as obras
de Max Weber.
Este
texto tem o objetivo de estabelecer uma análise e, paralelamente, um diálogo
com outros autores sobre as visões de Estado e “comportamento social”
brasileiro presentes no capítulo.
O texto O
Homem Cordial inicia-se a partir da afirmação de que o “Estado não é uma
ampliação do círculo familiar e, ainda menos, uma integração de certos
agrupamentos [...]. Não existe entre o círculo familiar e o Estado, uma
gradação, mas antes uma descontinuidade e até uma oposição” (HOLANDA, 1995: 141).
Essa afirmação também é vista na obra A
Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado do sociólogo Friederich
Engels, em que afirma que, apesar de o Estado ser produto de uma série de
consequências e contradições de instituições “primitivas” que partem,
inclusive, dos âmbitos familiares, ele se torna necessário para encerrar as
ações de algumas dessas instituições sociais. O Estado surge para intervir na
“luta prática de interesses particulares”, para que estes sejam erradicados da
esfera pública, que deve ser de interesse comum a todos.
[...]
com a divisão do trabalho é dada ao mesmo tempo a contradição entre o interesse
do indivíduo ou da família singulares e o interesse coletivo de todos os
indivíduos que se relacionam entre si; e, com efeito, este interesse coletivo
não existe apenas na representação, como ‘interesse geral’, mas se apresenta,
antes de mais nada, na realidade, como a dependência recíproca de indivíduos
entre os quais o trabalho está dividido. [...] É justamente desta contradição
entre o interesse particular e o interesse coletivo que o interesse coletivo
toma, na qualidade de Estado, uma forma autônoma, separada dos reais interesses
particulares e gerais e, ao mesmo tempo, na qualidade de uma coletividade
ilusória, mas sempre sobre a base real dos laços existentes em cada
conglomerado familiar e tribal – tais como, laços de sangue, linguagem, divisão
do trabalho em maior escala e outros interesses – e sobretudo, como
desenvolveremos mais adiante, baseada nas classes, já condicionadas pela
divisão do trabalho, que se isolam em cada um destes conglomerados humanos e
entre as quais há uma que domina todas as outras. Segue-se que todas as lutas
no interior do Estado, a luta entre a democracia, a aristocracia e a monarquia,
a luta pelo direito do voto, etc., etc. são apenas formas ilusórias nas quais
se desenrolam lutas reais entre as diferentes classes. [...]; segue-se, além
disso, que toda classe que aspira à dominação, mesmo que essa dominação, como
no caso do proletariado, exija a superação de toda a antiga forma de sociedade
e de dominação em geral, deve conquistar primeiro o poder político, para
apresentar seu interesse como interesse geral [...] (ENGELS, 1979).
Segundo
Holanda, a visão de descendências das instituições sociais em “linha reta” até
o surgimento do Estado é um “prejuízo romântico” e um viés equivocado de
interpretação de muitos entusiastas do século XIX frente ao papel real que o
Estado deve exercer sobre a sociedade. O autor afirma que
só pela
transgressão da ordem doméstica e familiar é que nasce o Estado e que o simples
indivíduo se faz cidadão, contribuinte, eleitor, elegível, recrutável e
responsável ante as leis da cidade. Há nesse fato um triunfo do geral sobre o
particular, do intelectual sobre o material, do abstrato sobre o corpóreo e não
uma depuração sucessiva, uma espiritualização de formas mais naturais e
rudimentares, uma procissão das hipóstases, para falar como na filosofia
alexandrina. A ordem familiar, em sua forma pura, é abolida por uma
transcendência. (HOLANDA, 1995: 141)
Para
o autor, foi a moderna divisão do trabalho do sistema industrial nos processos
de manufatura que suprimiu as relações de intimidade observadas no Antigo
Regime. As “responsabilidades” do indivíduo no meio de produção moderno deixam
de ser pessoais (que era reflexo de um comportamento familiar, interferência do
privado no âmbito público) e passam a ter caráter “técnico” e individual.
Para
demonstrar as oposições de comportamento e alterações nas responsabilidades dos
indivíduos entre os âmbitos hierárquicos no meio do trabalho, Holanda mune-se
de dois exemplos: A relação entre o mestre e seu aprendiz na organização de
produção do “Velho Mundo” e a relação entre “superiores” e trabalhadores na
organização da corporação moderna.
No
primeiro, as relações de empregador e empregado eram pessoais e diretas, não
havia autoridades intermediárias. Na última, entre o trabalhador manual e o
derradeiro proprietário – o acionista – existe toda uma hierarquia de
funcionários e autoridades representados pelo superintendente da usina, o
diretor-geral, o presidente da corporação, a junta executiva do conselho de
diretoria e o próprio conselho de diretoria. Como é fácil que a
responsabilidade por acidentes do trabalho, salários inadequados ou condições
anti-higiênicas se perca de um extremo ao outro dessa série. (HOLANDA, 1995:
142)
É
possível, a partir daí, captar a essência de organização estatal que Holanda
considera ser a mais adequada: aquela que suprime toda e qualquer relação
íntima e familiar nos espaços públicos para uma maior coesão social e
“participação” de uma gama maior de interesses; em suma, uma maior participação
da sociedade em sua organização política e social. O que atualmente ocorre é o
inverso, pois, para o homem cordial, a esfera pública é uma extensão da esfera
privada, elas não se distinguem porque uma herança cultural trazida nas “raízes
do Brasil” colonial onde “imperou, desde tempos remotos, o tipo primitivo da
família patriarcal, o desenvolvimento da urbanização [...] ia acarretar um
desequilíbrio social, cujos efeitos permanecem vivos ainda hoje” (HOLANDA,
1995: 145) não permitem a descontinuidade familiar necessária a esse Estado
almejado pelo autor.
Cabe
ressaltar que a “cordialidade” apontada por Holanda não deve ser vista como “polidez”,
pois o termo aderiu esse sentido através da dinâmica da linguagem. O termo deve
ser interpretado a partir do seu sentido etimológico que remete ao latim cordis, que significa coração. Logo, o
homem cordial é aquele que age com o coração
ao invés da razão.
O
homem cordial se apresenta na esfera pública a partir do seu comportamento que
é um traço definido do caráter brasileiro: “lhaneza no trato, a hospitalidade,
a generosidade”, traços esses que permanecem ativos e trazem consigo “a
influência ancestral dos padrões de convívio humano, informados no meio rural e
patriarcal”. Para Holanda, essa é a contribuição do brasileiro para a
civilização: a cordialidade. Cordialidade que não deve ser confundida com “boas
maneiras” e civilidade, mas “são antes de tudo expressões legítimas de um fundo
emotivo extremamente rico e transbordante” (HOLANDA, 1995: 146-147).
Podemos
então considerar parte desse comportamento do homem cordial na esfera pública
de “jeitinho brasileiro”. Termo cunhado e utilizado na antropologia social por
Lívia Barbosa em sua obra O Jeitinho
Brasileiro para denominar a forma ou o recurso que os cidadãos no Brasil se
utilizam para burlar alguma regra preestabelecida pelo Estado. A autora afirma que "o jeitinho é uma categoria central
da sociedade brasileira", mais que isso, uma característica resultada de
"uma discrepância existente entre nossas instituições sociais, políticas e
jurídicas e as práticas sociais", que não é legal nem ilegal, é, segundo a
autora, “paralegal” (BARBOSA, 1992: 12). Enquanto Holanda aponta essa
discrepância existente nessas instituições fecundada outrora nas relações
culturais de um Brasil colonial, discrepâncias essas trazidas pelos portugueses
e modelado por indígenas e negros. É a utilização do recurso da “igualdade
moral” que se sobrepõe à “igualdade legal”.
No decorrer do capítulo, Sergio Buarque de
Holanda exemplifica esse comportamento do homem cordial em quatro esferas: na
pedagogia, no domínio da linguística, no tratamento entre as famílias e na
relação do brasileiro com o sagrado (catolicismo). Tomaremos nota desta última
em especial para finalizar este ensaio.
A
relação dos católicos com o sagrado é algo que, apesar da importância no âmbito
familiar, na Europa e na península Ibérica medievais se confundia e entrelaçava
com o Estado e a esfera pública, relação essa que só se distancia do público a
partir do processo de secularização na Idade Moderna. O autor ressalta que é
notório o tratamento dos santos e do menino Jesus, por exemplo, de uma forma
tão íntima que chega a ser “quase desrespeitosa” (HOLANDA, 1995: 149).
Essa
forma de culto, que tem antecedentes na península Ibérica, também aparece na
Europa medieval e justamente com a decadência da religião palaciana,
superindividual, em que a vontade comum se manifesta na edificação dos
grandiosos monumentos góticos. Transposto esse período – afirma um historiador –
surge um sentimento humano e mais singelo. Cada casa quer ter sua capela
própria, onde os moradores se ajoelham ante o padroeiro e protetor. Cristo,
Nossa Senhora e os santos já não aparecem como entes privilegiados e eximidos
de qualquer sentimento humano. Todos, fidalgos e plebeus, querem estar na
intimidade com as sagradas escrituras e o próprio Deus é um amigo familiar,
doméstico e próximo – o oposto do Deus “palaciano”, a quem o cavaleiro, de
joelhos, vai prestar sua homenagem, como a um senhor feudal (HOLANDA, 1995: 149).
Holanda
detecta no Brasil um “culto sem obrigações e sem rigor, intimista e familiar
[...], “democrático”, um culto que dispensava no fiel todo esforço, toda
diligência e toda tirania sobre si mesmo, o que corrompeu, pela base, o nosso
sentimento religioso.” (HOLANDA, 1995: 150)
O
autor conclui seu texto elaborando uma hipótese de que essa cordialidade e
aversão à burocracia estatal se dão (também) pelas heranças culturais
religiosas ibéricas, onde notamos a aversão ao ritualismo. O “jeitinho” do
brasileiro se transcende da vida íntima à esfera pública, vida íntima que “nem
é bastante coesa, nem bastante disciplinada [...] no conjunto social. Ele [o
brasileiro] é livre, pois, para se abandonar a todo o repertório de ideias,
gestos e formas que encontre em seu caminho, assimilando-os frequentemente sem
maiores dificuldades” (HOLANDA, 1995: 151).
REFERÊNCIAS
BARBOSA,
Lívia. O Jeitinho Brasileiro. Rio de Janeiro: Campos, 1992.
DAMATTA,
Roberto. Carnavais, malandro e heróis:
para uma sociologia do dilema brasileiro. 6ª Ed. Rio de Janeiro: Rocco,
1997.
ENGELS,
Friedrich. A Origem da Família, da
Propriedade Privada e do Estado. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira
S.A., 1979.
HOLANDA, Sergio
Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo:
Companhia das Letras, 1995