quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Religião e Internet – Algumas observações sobre o fenômeno da Privatização da Religião nos dias atuais


Este texto não tem o objetivo de analisar o campo religioso atual no Brasil em sua complexidade e muito menos afirmar que a Privatização da Religião é o único fenômeno consequente do uso religioso da internet no Brasil. Visamos aqui uma introdução ao assunto e ressaltar a importância de uma análise mais profunda desse fenômeno, pois ele altera bruscamente a identidade e a forma de crer do indivíduo e, por seguinte, a atual situação do campo religioso no Brasil.
No amplo panorama sobre estudos de sociedade e religião cabe investigar uma situação específica: as consequências do uso da internet para o campo religioso brasileiro. De um lado temos o fenômeno religioso, ora mais próximo, ora mais distante da sociedade. De outro lado temos a internet que, dentro de um conjunto de avanços tecnológicos da humanidade, potencializa o processo de comunicação entre pessoas. Para Manuel Castells (2001) a história da criação e do desenvolvimento da internet é um marco para o homem, pois transcende seus limites institucionais (até mesmo as instituições religiosas) e colabora para a quebra de paradigmas e valores individuais e coletivos – quebra essa que estabelece um a maior velocidade no processo de criação de um novo mundo. Para o autor, o advento da Internet estruturou novos padrões de interação social que substituem as comunicações humanas que são limitadas pelo território.
Devido ao fato de a rede online desenhar-se como “uma forma de organização caracterizada fundamentalmente pela sua horizontalidade” (COSTA, 2003, p. 73), torna-se um local indispensável para o usuário se inteirar do que precisa compreender para tomar uma decisão, substanciar ou denegar uma posição, invalidar ou ratificar uma percepção, um sentimento ou uma crença qualquer. Nesse contexto, traça-se um ambiente regado com inúmeros tópicos de discussões de assuntos tácitos nos ambientes virtuais de característica assíncronas (web forums, principalmente) que mesmo os religiosos mais fundamentalistas são tentados aos jogos reflexivos ali produzidos. Nessa conjuntura, a Comunicação Mediada por Computador (CMC), na atualidade, torna-se a principal responsável pela aceleração e alastramento do fenômeno da privatização da religião - “a ação dos indivíduos no sentido de moldar a sua própria religião, apropriando-se de fragmentos e de elementos provenientes de diversos sistemas religiosos” (ORO, 1997). Pois “até mesmo os indivíduos vinculados aos grupos mais exclusivistas atiram-se avidamente a exercícios de confrontação identitária, devido aos ideais contraditórios a que se submetem na rede, nos quais são obrigados constantemente a redefinirem suas identidades por mais atrelados que estejam a tais grupos” (JUNGBLUT, 2010, p. 207)
Para o entendimento da possibilidade da existência desse fenômeno (a Privatização da Religião) é necessário analisar a situação religiosa atual da sociedade brasileira, para isso é preciso entender um outro fenômeno que a permeia: o pluralismo religioso. Para Carlos Alberto Steil, “o pluralismo religioso é um fenômeno moderno que tem sua origem na ruptura do monopólio de uma religião como a igreja oficial de uma determinada sociedade” (STEIL, 2001, p. 116) O autor conclui que “justamente por não ser religiosa, (a sociedade) torna-se capaz de abrigar todas as religiões” (STEIL, 2001, p. 116). Dessa forma, podemos afirmar que o Brasil só é religiosamente diverso porque não tem religião; porque é laico e assegura a liberdade do culto religioso e essa liberdade assegura também o alastramento do fenômeno da Privatização da Religião, foco deste texto.
Esse fenômeno não é recente no Brasil. Por exemplo, o vemos se manifestar com a fala do personagem sertanejo de Guimarães Rosa em Grande Sertão Veredas, livro escrito e publicado no ano de 1956:
“Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio... Uma só, para mim é pouca, talvez não me chegue. Rezo cristão, católico, emprenho a certo, e aceito as preces de Quelemém, doutrina dele, de Cardéque. Mas, quando posso, vou no Mindubim, onde um Matias é crente, metodista: a gente se acusa de pecador, lê alto a Bíblia, e ora, cantando hinos belos deles.”
Diferente do personagem de Guimarães Rosa que vive em um âmbito de informações limitado comparado aos dias de hoje com o advento da internet, nós temos a facilidade de acesso a informação e às discussões voltadas para religião, o contato com as religiões é mais diverso e ocorre em uma escala maior. Esse fenômeno torna-se mais vigente com a maior facilidade de trânsito e alcance de informação e de ideais de doutrinas religiosas diversas, através do advento das tecnologias da informação e comunicação.
As redes sociais digitais tem colaborado bastante para o crescimento das discussões religiosas, principalmente o Facebook, pois no Brasil é a rede mais utilizada. É possível perceber a existência de páginas voltadas para diversos tipos de religiões, páginas focadas em discussões religiosas e até mesmo páginas voltadas para o ateísmo e o agnosticismo. Apesar das diferenças entre as páginas, existe uma característica que é comum a todas elas: as discussões de assuntos religiosos, sejam elas proselitistas ou não. Em maior ou menor grau, os indivíduos acabam reformando sua identidade religiosa de forma particular, independentemente das doutrinas institucionais.(JUNGBLUT, 2010)
Notamos a partir dessas conclusões que atualmente a diversidade religiosa no Brasil é algo de uma complexidade considerável, principalmente com o alastramento e o desenvolvimento das tecnologias da informação. Essa complexidade ultrapassa os limites territoriais e institucionais e traçam um campo religioso difícil de ser classificado e até mesmo estudado, já que está baseado em experiencias e reflexões individuais. 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

CASTELLS, Manuel. A Galáxia da Internet: Reflexões sobre a internet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.

COSTA, Larissa (Coord.). Redes: uma introdução às dinâmicas da conectividade e da auto-organização. Brasília: WWF-Brasil, 2003.

JUNGBLUT, Airton Luiz. O uso religioso da Internet no Brasil. PLURA, Revista de Estudos de Religião, vol. 1, n. 1, p. 202-212, 2010.


ORO, Ari Pedro. Modernas formas de crer. Revista REB 225: 39-56,1997.


STEIL, Carlos Alberto. Pluralismo, Modernidade e Tradição: transformações do campo religioso. Ciências Sociais e Religião, Porto Alegre, ano 3, n.3, p. 115-129, 2001.

8 comentários:

  1. Muito bom. Parabéns! Ganhamos todos os que torcem por discussões mais quilificadas na rede. Vá em frente, abraços!

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  2. Belo texto pra avançarmos com serenidade e inteligencia sobre o tema ...Grande Ramon

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  3. Parabéns pela pesquisa, imparcialmente dirigida para o assunto em questão, pena que algumas pessoas ainda usem a rede para atacar qualquer religião divergente das suas. Abraços, que venham mais...

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  4. Brilhante como sempre, Ramon!! Que bom seria se as pessoas pudessem se abrir um pouco mais para poder conversar mais sobre esse tema!

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    1. A ideia é "viralizar" essa ideia, Manu!
      Obrigado pelo carinho.

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