Muitas vezes notamos acontecimentos que se assemelham a fatos
passados de nossa História. O presente
texto visa uma comparação geral entre a Revolta do Vintém,
ocorrida nos últimos anos do Período Imperial no Brasil, e as
manifestações desencadeadas em junho de 2013 por consequência do
aumento do valor de passagens em alguns Estados do país. Dessa
forma, visa-se um melhor entendimento
sobre esses dois acontecimentos.
Na década de 1870, o orçamento da coroa ia de mal a pior. Alguns
impostos foram criados e alguns já existentes foram aumentados para
suprir o déficit orçamentário do Império. Um dos impostos criados
foi o “imposto do vintém” no dia 28 de dezembro de 1879 pelo
Ministro da Fazenda, que consistia no aumento de um vintém (vinte
réis) sobre as passagens do principal meio de transporte público da
época: os bondes puxados por burros e mulas. Desde o anúncio do
novo imposto, surgiram mobilizações lideradas por publicistas,
políticos e principalmente republicanos que visavam a todo custo a
queda do Império. Cerca de cinco mil pessoas encabeçadas pelo
médico e jornalista republicano Lopes Trovão, dono da Gazeta da
Noite, reuniram-se em frente ao palácio do imperador para entregar
uma petição solicitando a revogação da taxa, mas as tropas não
permitiram a aproximação da multidão. Durante a retirada dos
manifestantes o imperador aceitou receber uma comissão para
negociar, porém os militantes republicanos recusaram o encontro para
tirar o máximo proveito político da reação da polícia.
No dia 1º de janeiro de 1880 uma multidão se reuniu no Largo do
Paço, atual Praça 15 de Novembro, e inaugurou uma forma de
protestos urbanos violentos no Brasil. Aos
gritos de “Fora o Vintém!” os manifestantes espancaram
condutores, esfaquearam alguns animais que puxavam os bondes,
arrancaram trilhos e munidos de paus e pedras entraram em confronto
com a força policial. Esta armada de
cassetetes rígidos, na época, foi apelidada
de “bengala de Petrópolis”. As manifestações públicas
conhecidas como Revolta do Vintém estenderam-se de 28 de dezembro de
1879 a 4 de janeiro de 1880, quando as taxas sobre as passagens foram
finalmente retiradas. Os conflitos resultaram de 3 a 10 mortos e
alguns feridos.
Mais de um século depois, no ano passado (2013), organizadas em
redes sociais digitais na internet, inicialmente pelo “Movimento
Passe Livre” e, aparentemente sem lideranças, eclodiram
inicialmente algumas manifestações contra o aumento de passagens
nas cidades de Porto Alegre, Natal e Goiânia, que alastraram-se de
forma viral por todo o Brasil posteriormente. Curiosamente, na cidade de São
Paulo os protestos começaram por conta do reajuste de vinte centavos
sobre o transporte urbano, valor que remete à memória do estopim da
Revolta do Vintém. A massa protestava aos gritos de “Se a tarifa não baixar, a cidade vai parar!”, e de fato parou. O prefeito Fernando Haddad classificou as manifestações como atos de
vandalismo e assim como no fim do período imperial, ordenou para que
a polícia agisse. Não com “bengalas de Petrópolis”, mas com
auxílio de novas tecnologias voltadas para dispersão de tumultos
como munição de elastômero (vulgarmente conhecida como bala de
borracha), bombas de gás lacrimogênio, sprays de pimenta, armas de
choque e cassetetes. A onda de manifestações continuou e com o
tempo sofreu uma breve pausa.
É importante analisarmos dois pontos cruciais para o entendimento
desses dois períodos:
1- Apesar de o estopim dessas manifestações ser o aumento da tarifa
no transporte público, o que leva a população às ruas é uma
série descontentamentos, a passagem torna-se apenas um ponto de
partida para que outras reivindicações sejam feitas. Durante a
Revolta do Vintém, os manifestantes protestavam também pelo alto
índice de desemprego, pela falta de moradia, pelas péssimas
condições sanitárias e pela carestia. O aporte de reivindicações
dos protestos em 2013 era constituído também pelo descontentamento
com os altos gastos com a Copa do Mundo de futebol que ocorrerá este
ano no país (2014), com o alto índice de problemas relacionados à
corrupção política no país, pela péssima qualidade dos sistemas
de educação e saúde, dentre outros.
2- A forte repressão policial com objetivo de dispersar os motins.
Apesar da diferença substancial entre a polícia imperial da década
de 1880 e da polícia militar atual, notamos que a corporação ainda
sofre reflexos de um Brasil elitista e centralizado. As ações
policiais em relação a essas manifestações são bem semelhantes
nos dois períodos, calcadas principalmente na repressão violenta
das classes que se manifestam contra medidas governamentais que não
atendem seus principais anseios. A polícia do Brasil Império e a
polícia militar do Brasil atual tem basicamente o mesmo objetivo,
defender os interesses da aristocracia vigente. A diferença nos dois
casos que tange aos conflitos entre civis e policias é o surgimento
dos black blocs nos movimentos de 2013, grupos
anarquistas de ação tática direta e sem lideranças que objetivam
adquirir força para confrontar com a polícia, desafiar o
establishment e as forças de ordem, bem como a destruição
da propriedade privada.
Partindo dessas análises e confrontando os fatos, nota-se que a
sociedade brasileira amadureceu politicamente a partir de suas
experiências vivenciadas principalmente no período republicano e
com a maior facilidade do acesso à informação através da
internet. A duração dos dois fatos elencados neste texto demonstra
tal amadurecimento, mesmo que ambos tenham sido fortemente reprimidos
e não atendidos de fato; a Revolta do Vintém durou apenas 8 dias,
não havendo espaço para as reivindicações secundárias. A revolta
acabou tornando-se apenas um dos pequenos fatos que colaboraram para
o estabelecimento do modelo republicano em 1889. Já as manifestações
que eclodiram em junho de 2013 aparentemente não terminaram, apenas
sofreram uma “pausa”, e a reivindicação principal (o aumento da
passagem) já não é seu principal foco. As lutas por direitos e
interesses das classes menos favorecidas que tomaram conta desses
movimentos e das redes sociais digitais na internet, de fato,
demonstram claramente que a sociedade brasileira tomou uma
perspectiva política mais embasada e coerente com seus interesses.


Bom texto!! Levanto algumas questões, apesar do descontentamento com a tarifa, eu não vejo nenhuma semelhança a mais, são características diferentes e como você mesmo elabora no texto, a sociedade brasileira passou por mais de um século de amadurecimento. Concordo que a polícia ainda têm o mesmo objetivo, aliás, toda a polícia como parte do aparelho repressor do Estado têm a mesma função, proteger o Estado e sua propriedade/ interesses. se tomarmos a perspectiva Weberiana de que o Estado é o espaço de atuação das elites, logo, a polícia protege a burguesia hoje e protegia a aristocracia ontem. Mas a polícia militar talvez seja pior que a imperial, os meganhas batiam com a bengala de petrópoles; mas a PM sequestra, tortura e mata; basta lembrar do pedreiro Amarildo, nome muito ligado as jornadas de junho. Haddad é prefeito e não governador de SP, o governador é Geraldo Alckmin.
ResponderExcluirEu evitaria usar a denominação massas e depois dizer que a sociedade brasileira se tornou mais consciente dos seus direitos; a massa é um conceito que subestima o potencial popular; o que é a massa? É uma coisa desforme, sem direção e sem consciência, é somente algo inerte que vai como uma boiada para determinada direção dependendo do estímulo que recebe; é dado uma característica quase freudiana para as massas, como se fossem um corpo inconsciente, um inconsciente coletivo. Eu prefiro o termos e conceitos mais contemporâneos; podemos usar o "multidão" do Negri, que é a soma de interesses individuais e se tornam coletivos ao questionar o poder do império global. É algo a se pensar, massa e consciência são coisas antagônicas, já população ou oprimidos não, estamos falando de grupos específicos.
Por fim, é preciso problematizar a questão urbana, concordo em gênero, número e grau contigo quando diz que a tarifa acaba por ser o estopim quando somada a dura repressão policial, mas o clima de descontentamento já vinha desenhado de anos; é incrivel como não tinha estourado antes este barril de pólvora. Não são somente os gastos com a copa, são os despejos, é o crime contra o patrimônio histórico e contra os índios; é o transporte coletivo em geral, com as paralisações de trens, ônibus e metrôs, até de taxistas! Engarrafamentos, saneamento básico, é a marginalização de populações inteiras, bairros inteiros que vão sendo tomados pela aliança público-privada pra fazer desvios, estacionamentos, aeroportos, e a população carente que já vivia na periferia vai sendo empurrada para a periferia da periferia.
Não é ignorar o caráter digital da mobilização (uma tendência no século XXI), mas não ignorar a centralidade da luta urbana, da luta pelo direito à cidade.
Ótimo comentário, Botelho!
ExcluirSão pontos relevantes a serem discutidos. Obrigado pelo toque sobre o governador.
Abraços!
Ramon, esse tipo de texto sempre me ajuda a ver as coisas de forma mais claras. Parabéns pelo texto e pela iniciativa!
ResponderExcluirQue bom que gostou, Manu.
ExcluirObrigado pela leitura.
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirAdorei Ramon. Obrigado por compartilhar seus conhecimentos e me ajudar a entender melhor nossa realidade. Seu fã!
ResponderExcluirValeu, Álvaro! Volte sempre!
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