Este texto não tem o objetivo de analisar o
campo religioso atual no Brasil em sua complexidade e muito menos
afirmar que a Privatização da Religião é o único fenômeno
consequente do uso religioso da internet no Brasil. Visamos aqui uma
introdução ao assunto e ressaltar a importância de uma análise
mais profunda desse fenômeno, pois ele altera bruscamente a
identidade e a forma de crer do indivíduo e, por seguinte, a atual
situação do campo religioso no Brasil.
No amplo panorama sobre estudos de sociedade e
religião cabe investigar uma situação específica: as
consequências do uso da internet para o campo religioso brasileiro.
De um lado temos o fenômeno religioso, ora mais próximo, ora mais
distante da sociedade. De outro lado temos a internet que, dentro de
um conjunto de avanços tecnológicos da humanidade, potencializa o
processo de comunicação entre pessoas. Para
Manuel Castells (2001) a história da criação e do desenvolvimento
da internet é um marco para o homem, pois transcende seus limites
institucionais (até mesmo as instituições religiosas) e colabora
para a quebra de paradigmas e valores individuais e coletivos –
quebra essa que estabelece um a maior velocidade no processo de
criação de um novo mundo. Para o autor, o advento da Internet
estruturou novos padrões de interação social que substituem as
comunicações humanas que são limitadas pelo território.
Devido
ao fato de a rede online
desenhar-se como “uma forma de organização caracterizada
fundamentalmente pela sua horizontalidade” (COSTA, 2003, p. 73),
torna-se um local indispensável para o usuário se inteirar do que
precisa compreender para tomar uma decisão, substanciar ou denegar
uma posição, invalidar ou ratificar uma percepção, um sentimento
ou uma crença qualquer. Nesse contexto, traça-se um ambiente regado
com inúmeros tópicos de discussões de assuntos tácitos nos
ambientes virtuais de característica assíncronas (web
forums, principalmente) que mesmo os
religiosos mais fundamentalistas são tentados aos jogos reflexivos
ali produzidos. Nessa conjuntura, a Comunicação Mediada por
Computador (CMC), na atualidade, torna-se a principal responsável
pela aceleração e alastramento do fenômeno da privatização da
religião - “a ação dos indivíduos no sentido de moldar a sua
própria religião, apropriando-se de fragmentos e de elementos
provenientes de diversos sistemas religiosos” (ORO, 1997). Pois
“até mesmo os indivíduos vinculados aos grupos mais exclusivistas
atiram-se avidamente a exercícios de confrontação identitária,
devido aos ideais contraditórios a que se submetem na rede, nos
quais são obrigados constantemente a redefinirem suas identidades
por mais atrelados que estejam a tais grupos” (JUNGBLUT, 2010, p.
207)
Para
o entendimento da possibilidade da existência desse fenômeno (a
Privatização da Religião) é necessário analisar a situação
religiosa atual da sociedade brasileira, para isso é preciso
entender um outro fenômeno que a permeia: o pluralismo religioso.
Para Carlos Alberto Steil, “o pluralismo religioso é um fenômeno
moderno que tem sua origem na ruptura do monopólio de uma religião
como a igreja oficial de uma determinada sociedade” (STEIL, 2001,
p. 116) O autor conclui que “justamente por não ser religiosa, (a
sociedade) torna-se capaz de abrigar todas as religiões” (STEIL,
2001, p. 116). Dessa forma, podemos afirmar que o Brasil só é
religiosamente diverso porque não tem religião; porque é laico e
assegura a liberdade do culto religioso e essa liberdade assegura
também o alastramento do fenômeno da Privatização da Religião,
foco deste texto.
Esse fenômeno não é recente no Brasil. Por
exemplo, o vemos se manifestar com a fala do personagem sertanejo de
Guimarães Rosa em Grande Sertão
Veredas, livro escrito e publicado
no ano de 1956:
“Muita religião, seu moço! Eu
cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água
de todo rio... Uma só, para mim é pouca, talvez não me chegue.
Rezo cristão, católico, emprenho a certo, e aceito as preces de
Quelemém, doutrina dele, de Cardéque. Mas, quando posso, vou no
Mindubim, onde um Matias é crente, metodista: a gente se acusa de
pecador, lê alto a Bíblia, e ora, cantando hinos belos deles.”
Diferente do personagem de Guimarães Rosa que
vive em um âmbito de informações limitado comparado aos dias de
hoje com o advento da internet, nós temos a facilidade de acesso a
informação e às discussões voltadas para religião, o contato com
as religiões é mais diverso e ocorre em uma escala maior. Esse
fenômeno torna-se mais vigente com a maior facilidade de trânsito e
alcance de informação e de ideais de doutrinas religiosas diversas,
através do advento das tecnologias da informação e comunicação.
As redes sociais digitais tem colaborado
bastante para o crescimento das discussões religiosas,
principalmente o Facebook, pois no Brasil é a rede mais utilizada. É
possível perceber a existência de páginas voltadas para diversos
tipos de religiões, páginas focadas em discussões religiosas e até
mesmo páginas voltadas para o ateísmo e o agnosticismo. Apesar das
diferenças entre as páginas, existe uma característica que é
comum a todas elas: as discussões de assuntos religiosos, sejam elas
proselitistas ou não. Em maior ou menor grau, os indivíduos acabam
reformando sua identidade religiosa de forma particular,
independentemente das doutrinas institucionais.(JUNGBLUT, 2010)
Notamos a partir dessas conclusões que
atualmente a diversidade religiosa no Brasil é algo de uma
complexidade considerável, principalmente com o alastramento e o
desenvolvimento das tecnologias da informação. Essa complexidade
ultrapassa os limites territoriais e institucionais e traçam um
campo religioso difícil de ser classificado e até mesmo estudado,
já que está baseado em experiencias e reflexões individuais.
COSTA, Larissa (Coord.). Redes: uma introdução às dinâmicas da conectividade e da auto-organização. Brasília: WWF-Brasil, 2003.
JUNGBLUT, Airton Luiz. O uso religioso da Internet no Brasil. PLURA, Revista de Estudos de Religião, vol. 1, n. 1, p. 202-212, 2010.
ORO, Ari Pedro. Modernas formas de crer. Revista REB 225: 39-56,1997.
STEIL, Carlos Alberto. Pluralismo,
Modernidade e Tradição: transformações do campo religioso.
Ciências Sociais e Religião, Porto Alegre, ano 3, n.3, p. 115-129,
2001.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
CASTELLS, Manuel. A Galáxia da Internet: Reflexões sobre a internet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.
CASTELLS, Manuel. A Galáxia da Internet: Reflexões sobre a internet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.
COSTA, Larissa (Coord.). Redes: uma introdução às dinâmicas da conectividade e da auto-organização. Brasília: WWF-Brasil, 2003.
JUNGBLUT, Airton Luiz. O uso religioso da Internet no Brasil. PLURA, Revista de Estudos de Religião, vol. 1, n. 1, p. 202-212, 2010.
ORO, Ari Pedro. Modernas formas de crer. Revista REB 225: 39-56,1997.

Muito bom. Parabéns! Ganhamos todos os que torcem por discussões mais quilificadas na rede. Vá em frente, abraços!
ResponderExcluirObrigado, Alcimar!
ExcluirBelo texto pra avançarmos com serenidade e inteligencia sobre o tema ...Grande Ramon
ResponderExcluirShow de bola, Miguel!
ExcluirParabéns pela pesquisa, imparcialmente dirigida para o assunto em questão, pena que algumas pessoas ainda usem a rede para atacar qualquer religião divergente das suas. Abraços, que venham mais...
ResponderExcluirObrigado, Magda! Um dia chegaremos lá!
ExcluirBrilhante como sempre, Ramon!! Que bom seria se as pessoas pudessem se abrir um pouco mais para poder conversar mais sobre esse tema!
ResponderExcluirA ideia é "viralizar" essa ideia, Manu!
ExcluirObrigado pelo carinho.