No
dia 18 de abril, cerca de cinquenta pessoas desabrigadas oriundas da
desocupação do terreno da Oi no Engenho Novo acampavam na frente da Catedral
Metropolitana do Rio de Janeiro, sob a alegação de que também foram expulsos do
entorno da prefeitura pela Polícia Militar e pela Guarda Municipal e não tinham
para onde ir. Os ocupantes dizem que não querem ir para os abrigos provisórios
da prefeitura, pois, segundo eles, o tráfico e o uso intensivo de drogas são
presentes nesses abrigos. Alegam também que a documentação da prefeitura que
promete programas sociais para moradia não foram entregues à grande maioria das
3 mil pessoas que foram expulsas do terreno durante a desocupação.
Essa
nova ocupação dos desabrigados nas portas da catedral relembram a busca do povo
nordestino por intervenção divina, através de Antônio Conselheiro, em Belo
Monte, no início da Primeira República, já que a o Estado naquele tempo já não
atendia as necessidades de um povo que sofria com as novas ordens de cunho
federalista.
Em
nota oficial, pela primeira vez na história, a Arquidiocese de São Sebastião do
Rio de Janeiro cancelou a encenação que relembra o calvário da crucificação de
Cristo, um dos eventos mais importantes para os cristãos e católicos, realizadas
em períodos de Páscoa:
Diante da ocupação da entrada da Catedral do
Rio de Janeiro por um grupo de pessoas oriundo da OI/TELERJ, que solicitava
apoio para moradia, a Arquidiocese do Rio de Janeiro, através de responsáveis
diretamente ligados ao Arcebispo, ofereceu-se para mediar uma solução ainda que
parcial, uma vez que o período de feriados não permite soluções mais
definitivas.
Apesar das negociações terem se encaminhado
para o atendimento provisório dos efetivamente necessitados, em local do poder
público, com o apoio da Igreja e serviços sociais e apesar de os necessitados a
terem inicialmente aceito, ao final, não se chegou a uma solução satisfatória.
Após ouvir assessorias, os necessitados retrocederam.
A Arquidiocese do Rio de Janeiro lamenta que
existam pessoas que ainda sofram em virtude da ausência de moradia e sejam
manipuladas por outros interesses.
A Catedral permanecerá fechada. O Sr.
Cardeal, em solidariedade a todos os necessitados realizará as celebrações
pascais em comunidades que experimentam a pobreza aguda e que serão informadas
oportunamente.
A Arquidiocese do Rio de Janeiro reafirma sua
intenção inicial de servir como mediadora entre os necessitados e o poder
público para encontrar uma saída.
(Nota oficial emitida pela Arquidiocese de
São Sebastião do Rio de Janeiro no dia 18/04/2014)[1].
Este
texto não tem a intenção de ser uma notícia, já que os grandes jornais e o
jornalismo independente realizam esse trabalho com bastante frequência,
principalmente na Internet. O texto em questão visa estabelecer um
questionamento sobre o papel do Estado e da Igreja (instituição) frente a esse
tipo de problema social no Brasil atualmente.
Conforme
a nota emitida pela Arquidiocese, a catedral fechou suas portas. Diante de
fatos como esse, a Igreja Católica tende a se mostrar uma instituição cada vez
mais calcada em interesses políticos do que na própria essência do cristianismo
enquanto crença. A nota oficial da arquidiocese “lamenta que existam pessoas
que ainda sofram em virtude da ausência de moradia e sejam manipuladas por
outros interesses”, ou seja, acusa os desabrigados de estarem sendo manipulados
por outros interesses da política vigente. Será mesmo que os manipulados por
interesses políticos são os desabrigados?
A
atitude da Arquidiocese não condiz com os atuais pedidos do Papa Francisco, que
visa um trabalho de aproximação entre a Igreja e os mais necessitados[2],
muito menos com a atual história da atuação política da Igreja Católica em
defesa dos Direitos Humanos na América Latina. Cabe aqui destacar a atuação de
Dom Paulo Evaristo Arns na luta contra a ditadura militar no Brasil e contra a
própria posição de Igreja Católica em apoio aos militares na primeira metade da
década de 60.
Alguns
fiéis cobram atitudes mais “cristãs” da Arquidiocese como abrigar o grupo em
algum local da Igreja no Rio; outros concordam com a decisão, mas lamentam o
cancelamento do evento sobre a paixão de Cristo. Outra parcela mais radical
defende uma intervenção policial na catedral para que os manifestantes sejam retirados
do local.
A
Igreja se oferece para ajudar nas mediações de acordo entre os desabrigados e a
prefeitura, sendo que não cabe a Igreja mediar esse tipo de acordo, pois a instituição
religiosa não deve intervir em processos políticos em um Estado laico. Caso
isso aconteça, só servirá para mostrar a fragilidade da laicidade de nossa
política diante de nossa cultura ainda em processo de secularização (leia aqui um texto de minha
autoria sobre os processos de laicidade e secularização). Essas mediações devem
ser feitas por órgãos e associações competentes a esse tipo de problema e não
por quaisquer instituições de cunho religioso. Cabe agora ao Estado decidir
quem de fato será o mediador: uma organização política ou uma instituição
religiosa (isso se houver acordo). Daí poderemos observar se sua “essência laica”
existe de fato ou se sua faceta é cristã e atende interesses de apenas uma
parcela da população, dessa forma, uma faceta não democrática.
As
ações da Igreja que sucederam a ocupação da catedral denotam que os verdadeiros
manipulados por interesses políticos não são somente os desabrigados e a classe
menos favorecida de nossa sociedade, como observa a Arquidiocese na nota
oficial, mas também os membros do alto clero da Igreja Católica. Os “de cima”
na hierarquia da Igreja se mostram cada vez mais aptos a manter um maior usufruto
do poder político pela instituição e cada vez mais dependentes do poder
político para atender seus interesses pessoais e os interesses da Igreja
enquanto instituição, práticas essas que relembram o medievo.
Com
intuito de complementação do texto, cabe aqui assinalar esse fato como um dos
colaboradores para o fenômeno da Particularização da Religião (leia sobre em
outro texto de minha autoria aqui),
pois muitos fiéis passam a interpretar esse tipo de atitude como um
comportamento cada vez menos coerente das instituições religiosas para com seus
dogmas, particularizando assim sua forma de crer independente de instituição ou
interpretações realizadas por ela.
[1] Disponível em: http://arqrio.org/noticias/detalhes/1958/nota-oficial-sobre-celebracao-da-sexta-feira-santa-na-catedral
(acesso em 19/04/2014)
[2]
Vídeo onde um cardeal lê o pedido Papa Francisco para que o mundo e a Igreja se
lembrem dos mais pobres, o discurso foi feito no Fórum Econômico Mundial em
janeiro desse ano na Suíça:
http://globotv.globo.com/rede-globo/jornal-da-globo/v/papa-francisco-pede-para-que-mundo-se-lembre-dos-mais-pobres/3093857/
http://globotv.globo.com/rede-globo/jornal-da-globo/v/papa-francisco-pede-para-que-mundo-se-lembre-dos-mais-pobres/3093857/

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