sábado, 19 de abril de 2014

A Igreja Católica fecha suas portas! - questionamentos e reflexões sobre a nota da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro em relação aos desabrigados do terreno da Oi


No dia 18 de abril, cerca de cinquenta pessoas desabrigadas oriundas da desocupação do terreno da Oi no Engenho Novo acampavam na frente da Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro, sob a alegação de que também foram expulsos do entorno da prefeitura pela Polícia Militar e pela Guarda Municipal e não tinham para onde ir. Os ocupantes dizem que não querem ir para os abrigos provisórios da prefeitura, pois, segundo eles, o tráfico e o uso intensivo de drogas são presentes nesses abrigos. Alegam também que a documentação da prefeitura que promete programas sociais para moradia não foram entregues à grande maioria das 3 mil pessoas que foram expulsas do terreno durante a desocupação.
Essa nova ocupação dos desabrigados nas portas da catedral relembram a busca do povo nordestino por intervenção divina, através de Antônio Conselheiro, em Belo Monte, no início da Primeira República, já que a o Estado naquele tempo já não atendia as necessidades de um povo que sofria com as novas ordens de cunho federalista.
Em nota oficial, pela primeira vez na história, a Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro cancelou a encenação que relembra o calvário da crucificação de Cristo, um dos eventos mais importantes para os cristãos e católicos, realizadas em períodos de Páscoa:

Diante da ocupação da entrada da Catedral do Rio de Janeiro por um grupo de pessoas oriundo da OI/TELERJ, que solicitava apoio para moradia, a Arquidiocese do Rio de Janeiro, através de responsáveis diretamente ligados ao Arcebispo, ofereceu-se para mediar uma solução ainda que parcial, uma vez que o período de feriados não permite soluções mais definitivas.
Apesar das negociações terem se encaminhado para o atendimento provisório dos efetivamente necessitados, em local do poder público, com o apoio da Igreja e serviços sociais e apesar de os necessitados a terem inicialmente aceito, ao final, não se chegou a uma solução satisfatória.  Após ouvir assessorias, os necessitados retrocederam.
A Arquidiocese do Rio de Janeiro lamenta que existam pessoas que ainda sofram em virtude da ausência de moradia e sejam manipuladas por outros interesses.
A Catedral permanecerá fechada. O Sr. Cardeal, em solidariedade a todos os necessitados realizará as celebrações pascais em comunidades que experimentam a pobreza aguda e que serão informadas oportunamente.
A Arquidiocese do Rio de Janeiro reafirma sua intenção inicial de servir como mediadora entre os necessitados e o poder público para encontrar uma saída. 
(Nota oficial emitida pela Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro no dia 18/04/2014)[1].

Este texto não tem a intenção de ser uma notícia, já que os grandes jornais e o jornalismo independente realizam esse trabalho com bastante frequência, principalmente na Internet. O texto em questão visa estabelecer um questionamento sobre o papel do Estado e da Igreja (instituição) frente a esse tipo de problema social no Brasil atualmente.
Conforme a nota emitida pela Arquidiocese, a catedral fechou suas portas. Diante de fatos como esse, a Igreja Católica tende a se mostrar uma instituição cada vez mais calcada em interesses políticos do que na própria essência do cristianismo enquanto crença. A nota oficial da arquidiocese “lamenta que existam pessoas que ainda sofram em virtude da ausência de moradia e sejam manipuladas por outros interesses”, ou seja, acusa os desabrigados de estarem sendo manipulados por outros interesses da política vigente. Será mesmo que os manipulados por interesses políticos são os desabrigados?
A atitude da Arquidiocese não condiz com os atuais pedidos do Papa Francisco, que visa um trabalho de aproximação entre a Igreja e os mais necessitados[2], muito menos com a atual história da atuação política da Igreja Católica em defesa dos Direitos Humanos na América Latina. Cabe aqui destacar a atuação de Dom Paulo Evaristo Arns na luta contra a ditadura militar no Brasil e contra a própria posição de Igreja Católica em apoio aos militares na primeira metade da década de 60.
Alguns fiéis cobram atitudes mais “cristãs” da Arquidiocese como abrigar o grupo em algum local da Igreja no Rio; outros concordam com a decisão, mas lamentam o cancelamento do evento sobre a paixão de Cristo. Outra parcela mais radical defende uma intervenção policial na catedral para que os manifestantes sejam retirados do local.
A Igreja se oferece para ajudar nas mediações de acordo entre os desabrigados e a prefeitura, sendo que não cabe a Igreja mediar esse tipo de acordo, pois a instituição religiosa não deve intervir em processos políticos em um Estado laico. Caso isso aconteça, só servirá para mostrar a fragilidade da laicidade de nossa política diante de nossa cultura ainda em processo de secularização (leia aqui um texto de minha autoria sobre os processos de laicidade e secularização). Essas mediações devem ser feitas por órgãos e associações competentes a esse tipo de problema e não por quaisquer instituições de cunho religioso. Cabe agora ao Estado decidir quem de fato será o mediador: uma organização política ou uma instituição religiosa (isso se houver acordo). Daí poderemos observar se sua “essência laica” existe de fato ou se sua faceta é cristã e atende interesses de apenas uma parcela da população, dessa forma, uma faceta não democrática.
As ações da Igreja que sucederam a ocupação da catedral denotam que os verdadeiros manipulados por interesses políticos não são somente os desabrigados e a classe menos favorecida de nossa sociedade, como observa a Arquidiocese na nota oficial, mas também os membros do alto clero da Igreja Católica. Os “de cima” na hierarquia da Igreja se mostram cada vez mais aptos a manter um maior usufruto do poder político pela instituição e cada vez mais dependentes do poder político para atender seus interesses pessoais e os interesses da Igreja enquanto instituição, práticas essas que relembram o medievo.
Com intuito de complementação do texto, cabe aqui assinalar esse fato como um dos colaboradores para o fenômeno da Particularização da Religião (leia sobre em outro texto de minha autoria aqui), pois muitos fiéis passam a interpretar esse tipo de atitude como um comportamento cada vez menos coerente das instituições religiosas para com seus dogmas, particularizando assim sua forma de crer independente de instituição ou interpretações realizadas por ela.




[2] Vídeo onde um cardeal lê o pedido Papa Francisco para que o mundo e a Igreja se lembrem dos mais pobres, o discurso foi feito no Fórum Econômico Mundial em janeiro desse ano na Suíça:
http://globotv.globo.com/rede-globo/jornal-da-globo/v/papa-francisco-pede-para-que-mundo-se-lembre-dos-mais-pobres/3093857/

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